Após a morte de Manoel Carlos, médica explica como doença do autor afeta o corpo, a cognição e por que complicações são riscos frequentes
16/01/2026 - Manoel Carlos, autor de novelas históricas e responsável por personagens icônicos da TV, morreu no dia 10 de janeiro aos 92 anos, após anos convivendo com a doença de Parkinson. Diagnosticado há alguns anos, o escritor seguiu ativo intelectualmente até a velhice, o que levanta dúvidas comuns entre o público: como o Parkinson afeta, na prática, o corpo? E o que costuma levar à morte de pacientes com Parkinson?
Para esclarecer essas questões, a CARAS Brasil conversou com a médica Roberta França, médica especialista em longevidade consciente e saúde mental, que explicou os impactos da doença de Parkinson, os riscos em estágios avançados e a importância do suporte familiar e multidisciplinar.
Atividade intelectual protege o cérebro no Parkinson?
O autor escreveu novelas até uma idade avançada e assinou ‘Em Família’ aos 80 anos. Mas esse esforço mental funciona como uma proteção real contra a progressão da doença?
Segundo a especialista, a resposta exige cautela. “A doença de Parkinson é uma doença neurodegenerativa, progressiva e inexorável. Ou seja, trata-se de uma condição que afeta todo o sistema neurológico, e não apenas a parte motora, e que, até a presente data, não possui medicação capaz de modificar a evolução da doença”.
Ela explica que o Parkinson é frequentemente associado ao tremor, mas vai muito além disso. “O paciente, além de apresentar um caminhar mais arrastado e dificuldade para realizar movimentos amplos, passa a ficar mais rígido. E isso não se limita apenas à marcha: ações simples, como levar um copo à boca ou usar um garfo, podem se tornar difíceis”.
Quando o assunto é escrever, o impacto é direto. “Escrever, por exemplo, é uma atividade complexa, pois exige coordenação motora fina, habilidade que vai sendo progressivamente perdida na doença de Parkinson”. Com o avanço do quadro, a letra muda e pode chegar um momento em que o paciente não consegue mais escrever. “O tremor e a perda do controle motor fino dificultam muito essa atividade”.
Ainda assim, há um ponto de esperança. “Quando o paciente mantém uma vida ativa, realizando fisioterapia, atividade física regular, estimulação cognitiva, terapia ocupacional e fonoaudiologia, os impactos motores da doença podem ser significativamente minimizados“. A médica alerta, porém, que a cognição também pode ser afetada ao longo do tempo, inclusive com risco de demência associada ao Parkinson.
O que costuma levar à morte em casos avançados de Parkinson?
A causa da morte de Manoel Carlos não foi divulgada, mas a dúvida é comum entre familiares de pacientes idosos com Parkinson avançado.
De acordo com Roberta França, os riscos vão além da mobilidade. “A doença de Parkinson afeta a parte motora de forma ampla, e isso não se restringe apenas à capacidade de caminhar”. Problemas intestinais, refluxo e perda de força vocal são frequentes. “Muitas vezes, ele inicia a fala normalmente, mas, aos poucos, a voz vai ficando cada vez mais fraca, até quase desaparecer”.
Esse comprometimento favorece engasgos. “Isso ocorre devido ao comprometimento da musculatura orofaríngea, o que também favorece episódios frequentes de engasgo. Esses engasgos podem levar a pneumonias por broncoaspiração”. Além disso, a limitação dos movimentos pode deixar o paciente acamado, aumentando ainda mais o risco de infecções respiratórias.
“Assim, em pacientes com doença de Parkinson em estágio avançado, as complicações respiratórias são uma das principais causas de óbito”, afirma. Há ainda o risco aumentado de AVC e a progressão da demência associada à doença.
Família e equipe multidisciplinar fazem diferença
Para a médica, nenhum paciente com Parkinson evolui bem sem suporte. “Um paciente com doença de Parkinson, sem o suporte de uma equipe multidisciplinar, dificilmente terá uma evolução positiva”.
Ela destaca que o diagnóstico precoce muda o cenário. “Quando o diagnóstico é feito precocemente, o tratamento medicamentoso é iniciado cedo e o paciente passa a realizar atividade física regular desde os primeiros sinais da doença, os resultados costumam ser melhores”.
O apoio emocional também é essencial. “A aceitação da doença de Parkinson é um processo difícil. Como os sintomas motores são visíveis, muitos pacientes sentem vergonha do tremor, de deixar cair objetos ou de sujar a roupa durante as refeições”. Sem apoio, o isolamento social e a depressão se tornam riscos reais.
Segundo a especialista, esse suporte pode garantir anos de convivência com a doença, com mais dignidade e qualidade de vida: “Por isso, a família, os amigos e toda a rede de apoio são fundamentais para ajudar o paciente a aceitar o tratamento e aderir às terapias”. Fonte: caras.
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